filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    joana rita #filocriatividade

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    Os Livros Perguntadores

    Não me lembro de ter havido um momento exacto em que decidimos: vamos criar os Livros Perguntadores, foi acontecendo.

    Havia os livros ilustrados. Havia a filosofia. Havia as perguntas que apareciam nas oficinas. E havia uma coisa que nos interessava particularmente: livros que não terminassem quando chegávamos à última página.

    Livros que provocam perguntas

    Em novembro de 2020, por ocasião do Dia Mundial da Filosofia, encontrei-me com Júlia Martins, do Plano Nacional de Leitura 2027, para uma conversa sobre livros filosoficamente provocadores. Falámos de livros que podiam convidar as crianças a pensar, a conversar, a discordar, a imaginar outras possibilidades. Fomos percebendo que havia uma característica que nos interessava particularmente, as perguntas.

    Não estamos aqui a falar de perguntas que apareciam escritas nos livros, mas sim das perguntas que os livros eram capazes de provocar. Um livro podia não ter uma única pergunta explícita e, ainda assim, deixar-nos cheios delas. Foi dessa conversa, entre nós as duas, que surgiram os Livros Perguntadores.

    A expressão foi ganhando forma enquanto falávamos de livros, de filosofia e das possibilidades de pensamento que a literatura infantil pode abrir. Não queríamos simplesmente criar mais uma lista de recomendações. Interessava-nos encontrar e partilhar livros capazes de provocar pensamento e gerar perguntas.

    Em Fevereiro de 2021, a ideia ganhou uma dimensão pública com o desafio #LivrosPerguntadores, lançado no blog e no Instagram. Queríamos descobrir e partilhar livros que perguntassem. Livros que nos deixassem desconfortáveis. Que não resolvessem tudo. Que nos obrigassem a parar. Que permitissem mais do que uma interpretação.

    #LivrosPerguntadores e o Plano Nacional de Leitura

    Em Março de 2021, voltámos a conversar, desta vez numa sessão dedicada aos #LivrosPerguntadores, no âmbito da Semana da Leitura. Há uma memória dessa experiência de que gosto particularmente: não combinávamos previamente os livros que cada uma ia apresentar.

    Cada uma chegava com as suas escolhas. Às vezes, o mesmo livro aparecia dos dois lados. Outras vezes, descobríamos livros que a outra não conhecia. E isso fazia com que a própria conversa fosse uma espécie de pequena investigação: o que é que este livro tem que nos faz considerá-lo perguntador?

    Em Junho fizemos novamente uma sessão, desta vez a propósito do Dia Mundial da Criança. E em Novembro, no âmbito do Dia Mundial da Filosofia, o PNL2027 voltou a acolher os Livros Perguntadores, apresentando uma selecção de títulos recomendados. A ideia começava a ganhar vida própria.

    O que é um Livro Perguntador?

    Os Livros Perguntadores nunca foram pensados como uma categoria de livros que obedecesse a uma fórmula. Não era: este livro tem perguntas, portanto é perguntador. Era outra coisa.

    Um livro perguntador pode provocar curiosidade. Pode criar tensão. Pode deixar-nos perante uma incerteza. Pode fazer-nos imaginar o que não está na página. Pode provocar desacordo. Pode fazer-nos mudar de opinião. Pode fazer-nos perceber que afinal não tínhamos pensado suficientemente bem sobre uma determinada coisa.

    Pode, simplesmente, deixar uma pergunta a viver connosco.

    Foi esta ideia que continuámos a explorar nas nossas conversas, sessões e recomendações e que, entretanto, foi encontrando outros caminhos.

    O FOLIO Educa e a newsletter

    Em Outubro de 2023, os Livros Perguntadores chegaram ao FOLIO Educa, em Óbidos. Participámos no Seminário Internacional “Os Riscos da Educação”, com a comunicação “Filosofia & Livros: um diálogo arriscado”.

    Foi também nesse dia que lançámos a newsletter #LivrosPerguntadores. A ideia era simples: continuar a fazer aquilo que já vínhamos fazendo — olhar para os livros, procurar aqueles que nos parecem particularmente provocadores e partilhá-los — mas dar-lhe uma casa própria. A newsletter nasceu como um espaço de curadoria de livros.

    Não se tratava de fazer uma lista dos melhores livros, nem de apresentar novidades editoriais, nem de dizer às pessoas o que deveriam ler. Tratava-se de seleccionar livros que, de alguma maneira, nos pareciam capazes de convidar a gerar perguntas.

    Livros para crianças, jovens e adultos. Livros que provocam pensamento. Livros que deixam qualquer coisa por resolver. Livros que permitem diferentes leituras e interpretações. A curadoria tornou-se, assim, uma parte essencial do projecto.

    Recomendar um livro perguntador implica assumir uma determinada ideia sobre a leitura: não procuramos apenas livros que tenham boas histórias ou belas ilustrações. Procuramos livros que possam convidar a parar, pensar, escutar e dialogar.

    Foi também nessa altura que começámos a tornar mais explícitos os critérios que estavam, desde o início, por detrás das nossas escolhas.

    O que faz de um livro um livro perguntador? O que é que procuramos quando escolhemos um título?Que tipo de perguntas pode nascer de uma determinada história? E, sobretudo, o que acontece quando um livro não nos dá uma resposta, mas nos deixa com uma pergunta?

    A newsletter foi uma maneira de continuar essa conversa. Uma conversa que tinha começado alguns anos antes, entre duas pessoas a falar de livros filosoficamente provocadores, e que entretanto se transformara num projecto partilhado de descoberta, selecção e curadoria.

    Os Livros Perguntadores tinham deixado de ser apenas uma expressão. Tinham-se tornado uma prática.

    Quando uma ideia encontra outros lugares

    Entretanto, fomos sabendo de bibliotecas e escolas que começaram também a usar a expressão Livros Perguntadores (ou #LivrosPerguntadores) para identificar livros, organizar colecções, criar actividades ou desenvolver projectos de leitura e filosofia.

    Não vejo com estranheza que uma expressão que surgiu num determinado contexto encontre outros contextos. Pelo contrário: é natural que as ideias circulem, sejam apropriadas, transformadas e ganhem novos significados quando chegam a outras pessoas.

    Uma biblioteca pode criar uma estante de Livros Perguntadores. Uma escola pode organizar um projecto com esse nome. Um professor pode seleccionar livros perguntadores para trabalhar com a sua turma. Um mediador pode descobrir uma utilização que nós nunca tínhamos imaginado. A ideia começa a ter vida própria.

    Para mim e para a Júlia, continua a ser importante contar a história da origem do projecto. Os Livros Perguntadores nasceram da nossa colaboração, das nossas conversas sobre filosofia e literatura e do trabalho que fomos desenvolvendo juntas a partir de 2020. A newsletter #LivrosPerguntadores, lançada no FOLIO Educa em 2023, foi mais um passo nessa história, transformando essa paixão pela descoberta em curadoria regular de livros.

    Uma ideia não precisa de ficar parada no lugar onde nasceu, pois ganha força quando outras pessoas a levam consigo.

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    joana rita #filocriatividade

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    Há perguntas que procuram respostas, outras transformam quem as faz.

    A diferença nem sempre está na pergunta, mas sim na forma como nos demoramos nela.

    Na escola, aprendemos muitas vezes que uma boa pergunta é aquela que conduz à resposta certa. Mas talvez exista outra forma de a entender.

    Uma boa pergunta pode não encurtar o caminho. Pode tornar esse caminho mais interessante, convidando-nos a reparar naquilo que dávamos por adquirido.
    Uma boa pergunta pode mostrar que uma palavra admite vários sentidos ou revelar que duas pessoas compreenderam a mesma situação de maneiras diferentes.

    Uma boa pergunta é uma porta para o diálogo.

    É por isso que continuo a acreditar que perguntar é uma prática que se cultiva.

    Na 4.ª edição do curso “A perguntar é que a gente se entende! — O papel da pergunta em contexto de sala de aula”, vamos pensar sobre as perguntas que fazemos, as perguntas que evitamos e as perguntas que podem criar melhores oportunidades para aprender em conjunto.

    📅 Início: 12 de outubro de 2026
    💻 Online | 25 horas
    🎓 Formação acreditada pelo CCPFC (ACC-133064/24)

    Ensinar também passa por escolher cuidadosamente as perguntas que colocamos.

    Informações junto do Centro de Formação Alice Maia Magalhães.

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    joana rita #filocriatividade

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    O ano lectivo 2026/2027 está à porta e a proposta da #filocriatividade é simples: parar para pensar, pensar em parar.

    Escrito assim, quase parece um trava-línguas.

    O olhar abranda. Voltamos atrás. Confirmamos se lemos bem a frase. A frase obriga-nos a fazer precisamente aquilo de que fala: parar.

    Parar é um grande desafio para a educação; não propriamente o fazer mais em menos tempo, nem tão pouco o fazer mais depressa. O grande desafio passa por criar as condições para pensar.

    O pensamento não gosta de pressa

    Vivemos rodeados de estímulos e a todo o momento somos convidados a responder antes de compreender o assunto em causa; opinamos antes de escutar; procuramos soluções antes de formular boas perguntas; atalhamos a fala das outras pessoas só para ouvir a nossa voz.

    A velocidade tornou-se um valor; já a pausa, parece uma perda de tempo.

    Hannah Arendt escreveu que pensar é uma actividade que interrompe o curso habitual da vida. Quando pensamos verdadeiramente, suspendemos por instantes a urgência do fazer para nos interrogarmos sobre o sentido daquilo que fazemos.

    É essa interrupção que importa recuperar.

    Aprender exige tempo

    Em Liberdade para Aprender, Peter Gray defende que a curiosidade é um dos motores mais poderosos da aprendizagem. A curiosidade não se programa ao minuto, nem floresce por decreto. Precisa de tempo para explorar, experimentar, errar e voltar a tentar.

    Nem todas as aprendizagens importantes são rápidas, algumas precisam que nos demoremos.

    Uma educação que liberta

    bell hooks lembra-nos que ensinar pode ser uma prática de liberdade. A liberdade também se aprende.

    Aprende-se quando existe espaço para formular perguntas próprias, quando diferentes perspectivas podem ser escutadas, quando mudar de opinião não é sinal de fraqueza, mas de crescimento.

    É difícil que isso aconteça quando tudo pede rapidez.

    O tempo das perguntas

    Acredito que filosofar é, antes de mais, criar tempo.

    Tempo para escutar.

    Tempo para perguntar.

    Tempo para pensar em conjunto.

    Como escreve Marilena Chaui, a filosofia começa quando recusamos aceitar o mundo como algo evidente e começamos a interrogá-lo. É nesse instante — quando suspendemos o automatismo e perguntamos “porquê?” ou “será mesmo assim?” — que o pensamento ganha espaço para acontecer.

    É esse espaço que procuro criar em cada uma das oficinas que dinamizo.

    Um convite para 2026/2027

    Gostaria de fazer um convite a escolas, bibliotecas, museus, empresas e outras instituições: reservem tempo para pensar. Protejam momentos em que as perguntas sejam tão importantes como as respostas. Criem espaços onde crianças, jovens e adultos possam demorar-se numa ideia antes de passarem à seguinte.

    Há que praticar o parar para pensar.

    Se acredita que também vale a pena criar tempo para pensar na sua escola, biblioteca, museu, empresa ou organização, convido-o(a) a conhecer as propostas #filocriatividade para 2026/2027.

    Preencha o formulário de contacto para que possamos conversar sobre a melhor forma de desenhar uma oficina, formação ou projecto à medida do seu contexto.

    joana rita

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    joana rita #filocriatividade

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    Há perguntas que parecem demasiado grandes para serem feitas às crianças.

    Quem deve governar um país? Como se toma uma boa decisão? O que é justo? Que vozes devem ser escutadas?

    Quem já participou numa comunidade de investigação filosófica sabe que as crianças não só pensam sobre estas questões como, muitas vezes, o fazem de uma forma que surpreende os próprios adultos.

    Recentemente li uma entrevista ao filósofo Nicolás Brando, investigador da Universidade de Liverpool, na qual defendia uma ideia provocadora: excluir os menores da participação política é uma forma de discriminação baseada na idade. Não estava necessariamente a defender que as crianças passem a votar amanhã. O que questionava era algo mais profundo: porque razão assumimos, quase automaticamente, que a idade é suficiente para determinar quem merece ser escutado?

    O problema não é apenas não votar

    Quando pensamos em participação política, podemos correr o risco de reduzir a questão ao direito de voto, quando participar numa democracia é muito mais do que colocar um boletim numa urna.

    A participação democrática de cada um de nós passa por poder expressar opiniões, contribuir para decisões, questionar, propor alternativas, participar na construção dos espaços onde vivemos.

    Relativamente às crianças, o artigo 12.º da Convenção sobre os Direitos da Criança estabelece que todas as crianças têm o direito de expressar livremente as suas opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito e que essas opiniões devem ser consideradas de acordo com a sua idade e maturidade.

    Na prática, porém, é frequente ouvir as crianças apenas quando aquilo que dizem coincide com aquilo que os adultos já pensavam. Outras vezes, ouvimos, mas não fazemos nada a partir das suas ideias. A este propósito, recomendo a leitura deste artigo sobre o modelo Lundy.

    “Ainda és muito nova para perceber”

    Há uma frase que quase todas as crianças já ouviram: “Quando fores mais velho, percebes.”

    De facto, existem conhecimentos que exigem experiência, mas também é verdade que esta frase pode funcionar como um mecanismo de exclusão.

    Sem nos apercebermos, corremos o risco de confundir falta de experiência com incapacidade para pensar.

    É precisamente aqui que vários investigadores têm chamado a atenção para um fenómeno conhecido como injustiça epistémica.

    A filósofa Miranda Fricker utiliza este conceito para descrever situações em que alguém é considerado menos credível não pela qualidade das suas ideias, mas por pertencer a determinado grupo social.

    Originalmente, Fricker não estava a pensar nas crianças. Ainda assim, muitos investigadores têm mostrado que este conceito ajuda a compreender o modo como frequentemente desvalorizamos aquilo que elas sabem, observam ou pensam.

    Em muitos contextos, as crianças não são ignoradas porque estejam erradas; são ignoradas porque são crianças.

    Escutar não significa abdicar da responsabilidade

    Sempre que se fala em participação infantil, surge uma preocupação legítima: será que escutar as crianças significa deixá-las decidir tudo?

    Naturalmente que não, os adultos continuam a ter responsabilidades que não podem delegar.

    Mas entre decidir tudo pelas crianças e decidir tudo com elas existe um enorme espaço de possibilidades.

    Podemos explicar as razões das decisões, perguntar antes de decidir, criar momentos de diálogo, reconhecer que as crianças têm experiências únicas sobre a escola, a família, a cidade, os espaços públicos ou o ambiente.

    Quando lhes perguntamos o que pensam, não estamos apenas a recolher opiniões; estamos sim a ajudá-las a compreender como funciona uma democracia e a fazer esse exercício democrático.

    A Filosofia para Crianças como prática democrática

    A Filosofia para Crianças é mais do que uma metodologia educativa. Numa comunidade de investigação filosófica, ninguém recebe o direito de falar porque é o mais velho, o mais rápido ou o que sabe mais.

    As ideias são examinadas pelos argumentos que apresentam, as perguntas têm tanto valor como as respostas.. Aprende-se a discordar sem deixar de escutar e a justificar uma posição. Aprende-se a reconhecer a necessidade da mudança de ideias quando os argumentos dos outros nos fazem pensar de outra forma.

    Tudo isto constitui uma aprendizagem profundamente democrática, porque ajuda a participar na construção de pensamento comum.

    A inversão da pergunta

    Em vez de perguntarmos se as crianças estão preparadas para participar, talvez possamos inverter a pergunta: estaremos nós, adultos, preparados para ouvir seriamente aquilo que elas têm para dizer?

    Ao longo dos anos, tenho ouvido milhares de crianças em oficinas filosóficas. Nem sempre concordo com o que dizem. Nem sempre têm razão. Porém, isso também acontece quando dialogo entre adultos.

    O que continua a surpreender-me é a capacidade que têm para colocar perguntas que expõem as fragilidades das nossas certezas.

    Uma democracia saudável precisa de perguntas e não apenas de cidadãos capazes de responder.

    E se perguntássemos mais?

    Se acreditamos que as crianças têm o direito de participar na vida democrática, então precisamos também de lhes oferecer oportunidades para pensar sobre democracia.

    Podemos começar com perguntas como:

    • Quem deve decidir as regras de um jogo?
    • É possível agradar a toda a gente?
    • A maioria tem sempre razão?
    • É justo decidir sem escutar quem vai ser afectado?
    • Há pessoas que nunca são escutadas? Porquê?
    • O que faz com que uma decisão seja verdadeiramente democrática?

    É precisamente este o convite lançado pela Wonder Ponder no caderno The Question – Special Edition: Democracy, criado por Ellen Duthie e ilustrado pelo Studio Patten.

    Em vez de apresentar respostas sobre democracia, o material reúne perguntas, desafios de observação, entrevistas imaginárias, notícias para discutir e propostas para criar novas perguntas sobre participação democrática. O objectivo passa por cultivar a curiosidade e o pensamento crítico sobre aquilo que significa viver em democracia.

    Esta abordagem faz-me lembrar uma ideia que atravessa todo o trabalho da #filocriatividade: a participação começa muito antes de alguém poder votar.

    A participação começa quando uma criança percebe que as suas perguntas são encaradas com seriedade; quando a criança descobre que pensar em conjunto pode transformar a forma como olhamos para um problema; quando a criança sente que a sua voz é valorizada por contribuir para o pensamento comum.

    As oficinas #filocriatividade pretendem criar condições para que as pessoas que participam pratiquem um pensamento democrático.

    joana rita

    Se gostaria de organizar uma oficina na sua escola, biblioteca, associação, empresa ou outro contexto, entre em contacto comigo para falarmos sobre a proposta mais adequada.

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    joana rita #filocriatividade

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    Abrantes, uma cidade com tradição de filosofia no espaço público.

    Antes de existir o Festival de Filosofia de Abrantes, já havia na cidade quem procurasse criar espaços para a filosofia sair da sala de aula e encontrar outras pessoas, noutros lugares.

    Entre 2012 e 2022, o Clube de Filosofia de Abrantes promoveu 245 sessões de debate e reflexão, em Abrantes e no Sardoal. Fundado por José Alves Jana, Nelson de Carvalho e Mário Pissarra, o Clube partia frequentemente de livros, autores ou problemas filosóficos para criar momentos de conversa e confronto de ideias.

    Quando aconteceu a 1.ª edição do Festival de Filosofia de Abrantes, em 2017, já a cidade respirava pensamento filosófico.

    Da filosofia com crianças às residências filosóficas e às assembleias

    Desde 2017, o Festival de Filosofia de Abrantes tem vindo a criar espaços para pensar, conversar, questionar e dialogar sobre temas que dizem respeito à vida de todos e de cada um de nós.

    A programação tem vindo a aliar conferências e debates a livros, exposições, espectáculos e actividades dirigidas a diferentes públicos. Desde a primeira edição existe também uma preocupação em levar a filosofia às escolas e às crianças

    A minha colaboração com o Festival começou nesse ano, através da Filosofia para Crianças e das oficinas dirigidas à comunidade escolar. Desde então, foi-se alargando a famílias, museus, mediação cultural, residências filosóficas, assembleias.

    De 2017 a 2025

    A programação da primeira edição combinava conferências, debates e actividades dirigidas à comunidade, incluindo a iniciativa Filosofia com crianças, a Feira do Livro de Filosofia e intervenções das escolas secundárias. O tema do Festival foi: O regresso da Históriaa crise da democracia e o autoritarismo; a religião e os radicalismos

    Participei na primeira edição do Festival, em 2017, com Renata Sequeira, dinamizando iniciativas de Filosofia com Crianças nas escolas dos concelhos de Abrantes e Sardoal. Também Lara Sayão participou nessa edição, com uma formação para professores e educadores, na área da Filosofia para Crianças.

    Em 2018 o tema escolhido foi A inteligência artificial, o trabalho e o humano — automação e organização do trabalho; o primado do instrumental ou o primado do humano. Participaram Viriato Soromenho-Marques, Steven S. Gouveia, Arlindo Oliveira.

    Durante a pandemia, em 2020, a edição aconteceu em formato online, tendo tido como tema orientador Cidade, árvore que nos abriga e raiz que nos sustenta.

    Em 2021 foi retomado o formato presencial, as oficinas nas escolas e para famílias. O tema escolhido foi Cidade e a Arte e o Festival contou com a participação de Adriana Veríssimo Serrão , Dulce Maria Cardoso, Rui Horta, Manuel João Vieira, Paulo Pires do Vale, entre outros.

    A cidade como marca: paisagem, identidade e futuro — foi o tema da edição do Festival em 2022. Foi nesse ano que tive a oportunidade de dinamizar as oficinas no MIAA — Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, a partir de uma exposição do Mestre José Pimenta. Esta experiência  permitiu-me explorar de forma mais sistemática a relação entre filosofia, arte e mediação cultural.

    Paulo Lima, Helena Barranha, Mariana Correia, Moirika Reker, Dirk Hennrich e Jorge Gaspar foram alguns dos conferencistas que fizeram parte da programação do Festival.

    Em 2023, o tema geral do Festival estava relacionado com o compromisso com o futuro, as alterações climáticas, a sustentabilidade e outras questões que nos obrigam a pensar não apenas no presente, mas também no mundo que estamos a construir. O tema era provocador q.b.: Sustentabilidade: verdade ou consequências. Nesse ano, Viriato Soromenho-Marques regressou ao Festival.

    O Festival de Filosofia de Abrantes dedicou a sua 7.ª edição à Liberdade em Construção, no contexto das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. A conferência inaugural esteve a cargo de Ana Gomes.

    Aconteceu uma mudança importante na minha participação. Nesse ano, dinamizei um conjunto de Residêncisa Filosóficas de Perguntas e Respostas, com alunos do ensino secundário e profissional das escolas do concelho de Abrantes, tendo em vista a preparação da Assembleia da Liberdade — Eu penso, eu participo. Esta Assembleia contou com a participação de José Rosa.

    Em 2025, o Festival chegou à sua 8.ª edição com o tema “O poder da palavra: pensar, agir, transformar”. O Festival decidou homenagear José Gil, que nos brindou com uma conferência que pode ser escutada no YouTube.

    A experiência das residências filosóficas continuou. Entre 3 e 7 de Novembro decorreram residências de perguntas e respostas com alunos das escolas do concelho, preparando a Assembleia da Palavra. Desta vez, o trabalho envolveu alunos do 1.º ciclo, ensino secundário e profissional. A Assembleia voltou a contar com a participação de José Rosa.

    O que pode fazer um Festival de Filosofia numa cidade?

    Um festival de filosofia pode trazer filósofos e outros pensadores a uma cidade, convidando as pessoas que dela fazem parte a participar nas conferências, nos debates e nas apresentações de livros.

    Pode criar encontros entre pessoas que dificilmente se encontrariam noutros contextos. Pode criar oportunidades para que uma criança descubra que a sua pergunta merece ser escutada.

    Pode transformar uma turma num grupo de investigação. Pode fazer com que a filosofia deixe de ser apenas aquilo que acontece quando alguém sobe a um palco para falar sobre um tema e passe a ser também aquilo que acontece quando pessoas diferentes se sentam juntas e tentam pensar uma questão.

    Essa dimensão, de envolvimento, interessa-me particularmente na experiência de Abrantes. Uma cidade que convida quem nela vive e quem por ela passa a fazer perguntas e a arriscar respostas.

    joana rita

    fotografias: Facebook do Festival de Filosofia de Abrantes

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    joana rita #filocriatividade

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    Uma nota inicial: chamar “erros” talvez seja excessivo. Na verdade, falamos de um modo de reagir bastante humano.

    Todos nós já respondemos demasiado depressa, mudámos de assunto ou tentámos encontrar uma resposta perfeita.

    O problema não é fazê-lo ocasionalmente; é não percebermos como essas respostas podem, por vezes, fechar um diálogo que estava mesmo a começar.

    1. Responder demasiado depressa

    Às vezes a criança ainda a criança está a formular a pergunta ou o comentário e o adulto já avança com uma hipótese ou uma recusa para abordar o tema.

    Escrevi sobre a importância de acolher as perguntas das crianças no artigo É normal uma criança perguntar tanto? onde exploro o papel da curiosidade no desenvolvimento do pensamento.

    2. Pensar que todas as perguntas precisam de uma resposta

    Recordo-me de uma ideia partilhada pela Ellen Duthie: há perguntas que são perguntas para a vida e que vão acompanhar-nos uma e outra vez.

    Nem todas as perguntas precisam de uma resposta fechada, imediata e definitiva. Algumas precisam de tempo para serem contempladas. Outras precisam de silêncio para serem compreendidas. E há perguntas que, em vez de pedirem uma resposta, pedem outra pergunta.

    Quando respondemos demasiado depressa, podemos impedir que a pergunta continue a fazer eco dentro de nós.

    3. Confundir curiosidade com desafio

    Há adultos que, quando ouvem uma criança perguntar “Porquê?”, sentem que a sua autoridade está a ser posta em causa. Porém, na maioria das vezes, não é isso que está a acontecer.

    A criança não está necessariamente a contestar uma regra ou uma decisão; está a tentar compreender o mundo. Interpretar a curiosidade como desobediência pode levar-nos a interromper uma investigação que estava a dar os primeiros passos.

    4. Dar respostas demasiado completas

    É comum os adultos quererem muito dar respostas muito completas, como se fosse importante resolver definitivamente a questão naquele momento.

    Queremos explicar tudo, fechar o assunto e evitar que a pergunta volte a surgir.

    Uma boa conversa filosófica termina com uma compreensão mais profunda do problema e com novas perguntas. Ao tentarmos arrumar a pergunta de forma demasiado simplista, podemos retirar à criança a possibilidade de continuar a pensar sobre ela.

    Esta atitude pode tornar-se um obstáculo à prática da humildade intelectual, isto é, à capacidade de reconhecer que o nosso conhecimento é limitado, que as nossas explicações podem ser provisórias e que uma pergunta pode merecer várias respostas possíveis ao longo da vida.

    5. Corrigir antes de compreender

    A criança diz qualquer coisa que nos soa a errado. Por exemplo, numa oficina uma das crianças afirmou que “Não posso dizer que a terra é redonda.” O que fiz foi perguntar: “Então, o que queres dizer com isso?”

    Seria precipitado concluir que a criança está a defender que a terra é plana; e mesmo que fosse essa a sua ideia, nada como pedir esclarecimentos e solicitar as razões que fundamentam as suas ideias. Primeiro que tudo há que compreender o que a criança quer dizer.

    6. Ter medo de dizer “Não sei”

    Em tempos, um pai confessou-me que não era grande apreciador das várias perguntas que o filho lhe apresentava. Porquê?, perguntei eu. A resposta: “É que se eu não tenho a resposta, o que faço? Sou o pai, devia saber responder!”

    Tal como acontece com este pai, há adultos sentem que devem ter uma resposta para todas as perguntas das crianças. Quando não a têm, receiam perder credibilidade.

    No entanto, dizer “Não sei” pode ser uma excelente resposta, desde que não termine a conversa. Podemos ainda acrescentar: “Nunca tinha pensado nisso.”, “O que pensas tu?” ou “Como poderíamos investigar essa pergunta?”.

    Ao reconhecer que também temos dúvidas, mostramos às crianças que pensar não consiste em saber tudo, mas em permanecer disponível para investigar.

    7. Transformar todas as perguntas numa lição

    Às vezes basta pensar, não é preciso moralizar.

    Nem todas as perguntas precisam de terminar numa moral da história ou numa explicação sobre aquilo que está certo e aquilo que está errado.

    Por vezes, basta explorar a pergunta. O simples facto de escutarmos diferentes perspectivas, procurarmos razões ou imaginarmos alternativas já constitui uma aprendizagem.

    8. Valorizar apenas as perguntas “inteligentes”

    Há perguntas que parecem profundas à primeira vista e outras que parecem demasiado simples. Mas nem sempre as mais interessantes são aquelas que soam mais filosóficas (seja lá o que isso for!)

    A pergunta “Porque é que temos de arrumar os brinquedos?” pode abrir uma investigação sobre regras ou responsabilidade e até mesmo sobre justiça. Acolher uma pergunta é meio caminho andado para aprofundar o que nos parece simples.

    9. Apressar o diálogo

    Vivemos rodeados de horários, tarefas e interrupções. É natural sentirmos vontade de responder rapidamente e seguir em frente.

    No entanto, o pensamento precisa de tempo. Algumas perguntas ganham profundidade quando lhes damos espaço para amadurecer, quando aceitamos alguns segundos de silêncio ou quando regressamos ao mesmo assunto dias mais tarde.

    Nem todos os diálogos precisam de terminar no momento em que começaram.

    10. Esquecer que a pergunta também é para nós

    Quando uma criança pergunta, é fácil pensarmos que espera apenas uma resposta nossa — tal como referi no exemplo anterior, do pai que se afligia com as perguntas do filho.

    Muitas perguntas que escuto nas oficinas acabam por me interpelar, por me convidar a pensar ou a voltar a pensar. Considero que tenho uma oportunidade para revisitar ideias, para reconhecer dúvidas e, por vezes, para descobrir que nunca tinha pensado verdadeiramente naquele assunto.

    Julgo que essa é uma das maiores riquezas do diálogo filosófico: as perguntas das crianças não transformam apenas as crianças. Transformam também os adultos que aceitam pensar com elas.

    joana rita

    Se gostou de ler este artigo, então talvez valha a pena ler os seguintes:

    É normal uma criança perguntar tanto? — porque as perguntas são uma forma de compreender o mundo.

    O que é a Filosofia para Crianças? — uma introdução ao diálogo filosófico e à comunidade de investigação.

    Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover? — porque pensar em conjunto é diferente de tentar convencer.

    Quando um livro pergunta — como a literatura pode tornar-se um ponto de partida para o pensamento.

    O que pode uma pergunta? — uma reflexão sobre a curiosidade, a ignorância e o papel das perguntas no desenvolvimento do pensamento.

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    joana rita #filocriatividade

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    Uma formação especializada pode fazer diferença para quem já trabalha na área da Filosofia para Crianças e Jovens ou para quem pretende começar a desenvolver práticas.

    Estão abertas as candidaturas para a 8.ª edição da Pós-Graduação em Filosofia para Crianças e Jovens da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

    Uma formação para aprofundar a Filosofia para Crianças e Jovens

    A pós-graduação permite contactar com diferentes dimensões da área, articulando fundamentos filosóficos, questões educativas e metodologias de intervenção.

    São 96 horas de formação, correspondentes a 16 ECTS,

    Uma formação deste género pode ser uma oportunidade para pensar sobre aquilo que fazemos quando criamos condições para o filosofar das crianças e jovens.

    Quem pode beneficiar desta formação?

    Professores, educadores, profissionais de bibliotecas, museus e outras instituições culturais e educativas, facilitadores de comunidades de investigação e todos aqueles que desenvolvem — ou pretendem desenvolver — projectos relacionados com filosofia, educação e pensamento crítico podem encontrar aqui um espaço de aprofundamento.

    Uma das riquezas de uma formação nesta área está precisamente na possibilidade de experimentar, questionar, observar e discutir as próprias práticas.

    E se não está em Lisboa, não se preocupe: a edição pode ser frequentada em regime e-learning, com aulas síncronas e assíncronas. Esta possibilidade tem sido concretizada nas últimas edições, permitindo que estudantes que vivem fora de Lisboa — e até fora de Portugal — possam frequentar a formação. Assim, a localização geográfica deixa de ser necessariamente um obstáculo à frequência da pós-graduação.

    Faço parte da equipa docente

    Nesta edição, integro novamente a equipa docente da pós-graduação. Estarei responsável por duas unidades curriculares: Metodologias em Filosofia para Crianças e Jovens e Pensamento Crítico e Pensamento Criativo.

    Pensamento Crítico e Pensamento Criativo.

    São duas áreas que atravessam grande parte do meu trabalho enquanto filósofa, formadora e facilitadora de Filosofia para Crianças e Jovens.

    Tenho trabalhado nesta área há cerca de vinte anos e continuo a considerar fundamental criar espaços de formação onde seja possível não apenas aprender metodologias, mas também pensar filosoficamente sobre aquilo que fazemos quando trabalhamos com crianças e jovens.

    Para lá das respostas prontas

    Uma formação em Filosofia para Crianças e Jovens deve ajudar-nos a formular melhores perguntas.

    Perguntas sobre o que significa filosofar com crianças, sobre o papel do adulto numa comunidade de investigação, obre o que torna uma pergunta filosófica, sobre a relação entre pensamento crítico e criatividade, sobre a importância do diálogo. E, sobretudo, sobre que condições precisamos de criar para que crianças e jovens possam pensar por si próprios de modo colaborativo.

    É esse tipo de trabalho que esta pós-graduação procura aprofundar.

    8.ª edição da Pós-Graduação em Filosofia para Crianças e Jovens

    🟪 96 horas | 16 ECTS
    🟪 Início: 17 de outubro de 2026
    🟪 Possibilidade de frequência em regime e-learning
    🟪 Aulas síncronas e assíncronas, sem necessidade de deslocação à Faculdade
    🟪 Candidaturas até 23 de setembro

    Pode consultar o plano de estudos, a equipa docente, as condições de acesso e todas as informações sobre a candidatura na página da Pós-Graduação em Filosofia para Crianças e Jovens da FCH-Católica.

    Se a Filosofia para Crianças e Jovens faz parte do seu trabalho — ou se gostaria que passasse a fazer — talvez esta seja uma boa altura para aprofundar esse caminho.

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    joana rita #filocriatividade

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    Perguntar não mata: guia de exploração, para famílias, nos cemitérios

    Perguntar não mata é uma proposta de guia nos cemitérios para famílias e para escolas.

    A primeira proposta convida a conhecer o Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, nomeadamente um dos seus monumentos mais imponentes. O guia está disponível, gratuitamente, no Boletim Cultural dos Cemitérios de Lisboa #8.

    3 razões para visitar um cemitério, em família

    Para olhar para a vida através da memória dos outros

    Epitáfios, fotografias, esculturas, nomes, datas e objetos contam histórias. Observar esses vestígios pode levar a perguntas sobre quem fomos, o que deixamos e como queremos ser lembrados.

    Para aprender a olhar para um lugar de outra maneira

    Um cemitério é simultaneamente espaço de memória, património, arte e afectos. Uma visita pode transformar um passeio numa pequena investigação: O que estamos a ver? O que podemos descobrir? O que não conseguimos saber?

    Para conversar sobre a morte sem ser preciso esperar que ela aconteça

    O cemitério pode ser um ponto de partida para falar sobre a morte, a perda, o medo, as despedidas e aquilo que pensamos que acontece depois.

    *

    Uma visita em família ao cemitério não tem de ser uma visita “sobre a morte”. Pode ser uma oportunidade para conversar sobre a vida a partir de um lugar onde a morte está presente.

    joana rita

    Nota: imagem gerada por IA.

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    joana rita #filocriatividade

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    Cluj Philosophy Festival, 3rd Edition, October 14–19, 2026

    When the festival organizers chose the question “What do we still have in common?” as the theme for this year’s edition, they did not conceive of it in a nostalgic sense—as if we once shared a great deal, only to be left with little today. They did not intend to suggest that we shared so much in the past and that the present has become impoverished.

    The question is oriented toward the future, taking as its starting point the current experience of a “tragedy of the non-common,” as some authors term it. We begin with observations that are simple and accessible to everyone: collective action has become increasingly difficult to realize as we witness a world dominated by arbitrary powers and the operations of massive global economic groups; as citizens’ political engagement wanes and democracies weaken; and as the social fabric erodes, making way for forms of discourse and action that are fusionist, communitarian, and exclusionary—such as nationalism, xenophobia, racism, identity- and security-based paranoia, and discrimination against various types of minorities.

    For more details, check out the Festival’s facebook page.

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    joana rita #filocriatividade

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    Tenho comigo o exemplar 15/99 do livro A Loja dos Defeitos. Trata-se, portanto, de uma edição numerada e limitada, o que torna este livro ainda mais precioso enquanto objecto.

    “A minha avó encontrava defeitos em tudo o que via” — é assim que começa o texto assinado por Joana Rocha, estando as ilustrações ao cargo de Lisa Penedo e Marta Curtis.

    A primeira pergunta que o livro nos coloca é precisamente esta: o que é um defeito?

    Quando uma palavra comum se transforma numa pergunta

    A palavra “defeito” parece simples. Usamo-la para falar de objectos, de situações e até de pessoas — quem nunca perguntou a alguém “qual é o teu maior defeito?

    Mas quando paramos para pensar, percebemos que não é assim tão evidente.

    O que é um defeito?

    Algo que está errado?

    Algo que não corresponde ao esperado?

    Algo que alguém decidiu que deveria ser diferente?

    Será que existe um defeito por si mesmo ou será que aquilo que chamamos defeito depende sempre de um contexto, de um olhar, de uma comparação?

    Esta é uma das portas de entrada para a filosofia para/com crianças: transformar aquilo que parece óbvio numa pergunta.

    Na tradição da filosofia para/com crianças, desenvolvida por Matthew Lipman e Ann Margaret Sharp, entre outros, a investigação filosófica surge frequentemente a partir dos conceitos do quotidiano. Em Philosophy in the Classroom (1980), Lipman, Sharp e Oscanyan defendem a importância de criar espaços onde as crianças possam perguntar, argumentar e construir pensamento em conjunto.

    A Loja dos Defeitos oferece uma excelente oportunidade para uma comunidade de investigação filosófica: quem decide o que é um defeito? Uma característica pode ser um defeito num contexto e uma qualidade noutro?

    O lugar da imagem: olhar de novo para aquilo que parecia estranho

    Num livro que fala de defeitos, a presença das ilustrações ganha uma importância particular.

    As imagens de Lisa Penedo e Marta Curtis ajudam a construir o ambiente desta loja improvável: há senhas que tiramos para esperar pela nossa vez, há objectos e elementos que nos transportam para um espaço onde o negócio passa por vender aquilo que normalmente tentamos esconder.

    As ilustrações, pontuadas por colagens, tornam o livro ainda mais especial enquanto experiência física. A própria forma do livro parece convidar-nos a olhar com atenção para aquilo que poderia passar despercebido.

    Dos defeitos às possibilidades: pensar criativamente

    Esta transformação do olhar aproxima-se das propostas de pensamento criativo de Edward de Bono.

    O pensamento lateral convida-nos a procurar alternativas às interpretações habituais. Em vez de aceitar uma leitura única de uma situação, experimentamos outras possibilidades.

    Um traço que parece uma limitação pode revelar uma capacidade. Uma diferença pode tornar-se uma oportunidade. Uma falha pode abrir um caminho inesperado.

    Mas esta ideia não significa afirmar que todos os defeitos são virtudes. Significa antes perguntar: que critérios usamos para decidir que algo tem valor?

    Quem define o que é perfeito?

    É aqui que o livro convida a uma conversa em torno da ética.

    Quando chamamos algo de “defeito”, estamos sempre a partir de uma ideia de como algo deveria ser. Mas de onde vem essa ideia? Quem estabelece esses modelos?

    A pergunta das crianças que devolve a filosofia aos adultos

    Um dos autores de referência da área da filosofia para/com crianças, Gareth Matthews, mostra como muitas perguntas das crianças têm uma força filosófica precisamente porque questionam aquilo que os adultos já deixaram de interrogar.

    Uma criança pode perguntar:

    “Porque é que isso é um defeito?”

    Essa pergunta obriga-nos a justificar algo que talvez nunca tenhamos pensado verdadeiramente.

    A Loja dos Defeitos não nos dá uma resposta fechada sobre a imperfeição, já que o livro é um convite para perguntar e contemplar várias perguntas — e possibilidades de resposta.

    O livro permite-nos colocar em prática um dos elementos fundamentais da filosofia para/com crianças: aprender a perguntar antes de corrigir; aprender a escutar antes de classificar; e aprender a descobrir possibilidades onde antes víamos apenas falhas.

    joana rita

    A Loja dos Defeitos, de Joana Rocha, Marta Curtis e Lisa Penedo, Goonas Edições

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    joana rita #filocriatividade

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    Procura recomendações de livros para a sua lista de compras da Feira do Livro do Porto? Aqui encontra sugestões que têm sempre um assumido enviesamento filosófico.

    Para quem quer começar a ler Filosofia

    Toma um café com Sócrates, de Elke Wiss, Planeta

    O que é a Filosofia?, de António de Castro Caeiro, Tinta-da-China

    Grande História Visual da Filosofia de Masato Tanaka, Marcador

    Livros que provocam perguntas

    Quarto escuro, de Inês Barata Raposo e Pedro Pousada, Bruaá Editora

    Harold e o lápis púrpura, de Crockett Johnson, Relógio D’Água

    Esta árvore é minha (não te aproximes), de Oliver Tallec, Nuvem de Letras

    Literatura com um toque de Filosofia

    A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, Editorial Presença

    Tudo na natureza apenas continua, Yiyun Li, Alfaguara

    O que a chama iluminou, de Afonso Cruz, Companhia das Letras

    Outros livros

    A Arte de Não Ter Sempre Razão, de Martin Desrosiers, Zigurate

    Pensar Melhor, de Adam Grant, Vogais

    Não Acredites em Tudo — Como as teorias da conspiração nos tentam manipular, de Renato Rocha, Planeta

    *

    Alguns destes livros já foram sugeridos na newsletter #LivrosPerguntadores.

    Convido-o/a a subscrever AQUI.

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    joana rita #filocriatividade

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    Hoje, 12 de agosto de 2026, um eclipse solar vai atravessar o céu de várias regiões do mundo.

    Um eclipse é, antes de mais, um fenómeno astronómico. A Lua passa entre a Terra e o Sol e a sua sombra atinge a superfície terrestre. Dependendo do lugar onde estamos, podemos observar um eclipse total ou parcial.

    Para quem já visita este blog há algum tempo, aposto que adivinha o que vou dizer: um eclipse também pode ser uma excelente ocasião para perguntar.

    Quantas perguntas cabem num eclipse?

    Imagine uma criança a olhar para o céu.

    Porque é que o Sol desapareceu?

    É uma pergunta que podemos responder recorrendo à astronomia. Mas podemos continuar:

    Como sabemos que isto vai acontecer?

    Aqui já entramos no território do conhecimento e da previsão.

    Se estivermos dentro de casa e não virmos o eclipse, ele aconteceu na mesma?

    A questão é outra: estamos a perguntar pela relação entre realidade e observação.

    Porque é que algumas pessoas viajam centenas ou milhares de quilómetros só para ver um eclipse?

    Podemos falar de curiosidade, de experiências raras, de valor e de expectativa.

    Talvez surja ainda outra pergunta: Se toda a gente soubesse exactamente quando o eclipse ia acontecer, ele continuaria a ser surpreendente?

    Uma pergunta pode, portanto, começar por procurar uma explicação e acabar por abrir uma investigação.

    Perguntar não é apenas pedir informação

    As crianças fazem perguntas desde muito cedo. E essas perguntas não têm todas a mesma função.

    Algumas procuram informação: “Que horas são?”

    Outras procuram uma explicação: “Porque é que acontece um eclipse?”

    Outras procuram esclarecimento: “Mas a Lua fica mesmo à frente do Sol?”

    E outras podem levar-nos para questões mais abertas: “Como sabemos que aquilo que vemos é mesmo o que está a acontecer?”

    A investigação sobre o questionamento infantil tem mostrado precisamente que as perguntas desempenham um papel importante nos processos de compreensão e aprendizagem. As perguntas das crianças não se limitam a pedidos de informação: podem orientar a procura de explicações, ajudar a construir conhecimento e revelar aquilo que a criança está a tentar compreender.

    Também no ensino das ciências se tem defendido a importância das perguntas dos alunos para a construção do conhecimento. Jonathan Osborne e Emily Reigh, por exemplo, distinguem diferentes funções epistemológicas das perguntas, incluindo perguntas sobre entidades e acontecimentos, perguntas causais e perguntas sobre o próprio conhecimento.

    Isto não significa que se deva transformar todas as perguntas das crianças em perguntas filosóficas.

    Uma pergunta científica continua a ser uma pergunta científica. Uma boa explicação científica é importante. Perante o mesmo fenómeno, podem surgir diferentes tipos de investigação.

    Do “como acontece?” ao “o que significa?”

    É aqui que um fenómeno como o eclipse se torna particularmente interessante para uma sessão de Filosofia para Crianças.

    Podemos começar por aquilo que observamos: O Sol parece desaparecer.

    Depois procurar uma explicação: A Lua passa entre a Terra e o Sol e bloqueia a luz solar.

    Mas podemos continuar a perguntar: Se o eclipse não fosse observado por ninguém, teria acontecido?

    Ou: Como sabemos que um acontecimento que não podemos observar diretamente aconteceu?

    Ou ainda: Uma coisa precisa de ser vista para ser real?

    Estas perguntas já não se resolvem simplesmente procurando uma informação numa enciclopédia. Precisamos de pensar, apresentar razões, ouvir outras perspectivas, avaliar argumentos e eventualmente rever aquilo que pensamos.

    É precisamente este movimento de investigação partilhada que está no centro de muitas abordagens de Filosofia para Crianças.

    O diálogo filosófico pretende criar condições para que possamos investigar perguntas, construir e avaliar razões e pensar em conjunto. A literatura sobre Filosofia para Crianças descreve diferentes modalidades desta prática, mas a dimensão dialógica e investigativa é uma preocupação recorrente.

    Um eclipse também pode ser uma oportunidade para escutar

    Um fenómeno comum a um grupo permite que cada participante chegue ao diálogo com uma experiência própria. Cada um de nós olhar para o mesmo céu. Será que vamos ver exactamente a mesma coisa? Será que vamos ter as mesmas perguntas? O eclipse tem o mesmo significado para todos? Isto pode ser filosoficamente produtivo.

    O que é que este eclipse nos faz perguntar?

    Um pequeno kit para dialogar sobre o eclipse

    Quer continuar esta conversa? Preparei um pequeno Kit de Diálogo sobre o Eclipse, com propostas para explorar estas e outras perguntas em família ou em grupo.

    O kit é exclusivo para subscritores da newsletter da filocriatividade.

    [Quero receber o kit]

    Um eclipse pode durar apenas alguns minutos, já as perguntas que ele provoca podem durar bastante mais tempo.

    Nota informativa

    Para a informação astronómica sobre o eclipse de 12 de agosto de 2026, vale a pena consultar a página da NASA dedicada ao fenómeno. É importante ter em conta as recomendações para observar um eclipse em segurança.

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    joana rita #filocriatividade

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    Filosofia para pessoas não filósofas (*) — é como quem diz, filosofia para todos. Acredite, até as filósofas e os filósofos precisam praticar estes (e outros exercícios) diariamente. Caso contrário, o pensamento pode enferrujar ou tornar-se rígido, com demasiada areia na engrenagem.

    Aqui ficam 3 exercícios que pratico no meu quotidiano. A minha sugestão é que experimente um exercício de cada vez.

    1- Desafio: ler um livro de um filósofo

    Uma das práticas diárias de alguém que se dedica à filosofia ou que a estuda, passa pela leitura. Ler um livro de um filósofo permite-nos dialogar com o seu pensamento e ampliar o nosso.

    Vai ler coisas com as quais concorda, outras das quais duvida e ainda outras com as quais discorda. Podem acontecer muitas coisas quando nos colocamos no lugar de uma pessoa filósofa e tentamos ver o mundo pelos seus olhos. Pode vir a gostar ou não do que escreveu essa pessoa – ou melhor, daquilo que lhe chega do seu pensamento, nos textos.

    E como escolher o livro? Sugiro que comece por um filósofo que suscite alguma curiosidade. Experimente a leitura de um dos diálogos de Platão, por exemplo. A Apologia de Sócrates. Se preferir um olhar mais contemporâneo, avance para Mary Midgley e o livro “Para que serve a filosofia?”

    A regra deste desafio é simples: se o livro se mostrar difícil, assuma que o vai tentar ler, pelo menos durante um mês. Não desista. Citando o professor Clóvis de Barros, “é uma questão de brio”.

    Intercale uma leitura filosófica com uma leitura não filosófica, para que o seu pensamento ganhe distância face à filosofia e depois possa mergulhar nela com dedicação.

    2 – Anunciar o que vamos dizer

    Esta é uma regra de diálogo que aprendi com o professor Oscar Brenifier.  Trata-se de uma regra simples e que pode ser levada para qualquer tipo de diálogo, não necessariamente filosófico. Pode ser útil, por exemplo, em reuniões de trabalho. Antes de falar, anuncie o que vais fazer: vou acrescentar uma ideia, vou contradizer, vou fazer uma pergunta, vou contar uma anedota, vou reforçar o que disse, entre outros.

    Isto exige que pensemos no que vamos dizer e na sua relação com o diálogo em curso. Além disso, tem como efeito a clarificação do discurso. Permite aos outros que analisem as tuas palavras com base no teu anúncio prévio.

    O exercício é simples, mas nem por isso está isento de esforço. Esta prática abre espaço para que se identifiquem momentos de mudança de ideias; algo que é bastante comum, mas do qual nem sempre temos consciência de quando ou como aconteceu.

    Sim, pensar exige tempo e este exercício combate a pressa que temos para dizer muitas coisas e ajuda-nos a ficar mais confortáveis com o silêncio.

    3 – Fazer perguntas à pergunta

    Compre um caderno com o qual possa andar, para todo o lado. O desafio passa por registar uma pergunta por dia. Pode fazer esse exercício a qualquer hora do dia: o importante é que registe uma pergunta, todos os dias, durante um mês. No mês seguinte, pegue na pergunta do dia 1 do mês passado e faça pelo menos três perguntas a essa pergunta: e por aí fora.

    Desta maneira amplia o exercício do perguntar, a partir de uma interrogação. No final desse mês terá as 30 perguntas iniciais e ainda 90 que surgiram a partir dessas. No mês seguinte o desafio passa por responder a uma pergunta por dia.

     “Mas respondo a qual delas, Joana?” Sugiro que abra o caderno de forma aleatória e comece a responder. Por escrito, sim. Tenho para mim que ler e escrever, usando o suporte papel e a caneta para o efeito, nos permite um diálogo mais próximo com o nosso pensamento. E isto é baseado numa história verídica — a minha.

    (*) entenda-se, para quem não faz da filosofia o seu ofício.

    joana rita

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    joana rita #filocriatividade

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    O que pode fazer a filosofia num museu, numa exposição, num festival ou num espaço patrimonial?

    A pergunta interessa-me porque o meu trabalho de mediação cultural não nasceu de uma tentativa de levar a filosofia para os museus. Nasceu de um percurso mais longo, construído entre a filosofia, o diálogo e a criação de espaços para pensar.

    Desde 2008 que desenvolvo oficinas de Filosofia para/com Crianças e Jovens. Ao longo deste percurso, a prática do diálogo filosófico tornou-se uma das dimensões centrais do meu trabalho.

    Mais recentemente, tenho vindo também a aprofundar o estudo da mediação cultural e do turismo cultural, procurando compreender melhor a relação entre as pessoas, o património, os lugares e as experiências culturais.

    É neste cruzamento que situo actualmente uma parte importante da minha prática: a mediação cultural e filosófica, como uma forma particular de pensar o encontro entre públicos, obras, lugares e ideias.

    Quando uma obra se torna uma oportunidade para pensar

    Uma exposição pode ser visitada, uma obra pode ser explicada, um objecto pode ser contextualizado, um lugar pode ser apresentado através da sua história — e tudo isto importa.

    Uma experiência cultural pode também abrir espaço e tempo para pensar a partir daquilo que encontramos.

    Uma obra pode provocar uma pergunta sobre liberdade. Uma fotografia pode levar-nos a pensar sobre memória. Uma instalação artística pode fazer surgir questões sobre poder. Um objecto pode alterar a nossa percepção de uma determinada época. Um lugar pode tornar concretas perguntas que, de outra forma, permaneceriam abstractas.

    É nesse território que a filosofia encontra a mediação cultural, permitindo que aquilo que vemos se transforme numa experiência de pensamento.

    Não se trata de uma aula de filosofia dentro de um museu

    A mediação cultural e filosófica que desenvolvo não consiste em pegar numa obra, escolher um conceito filosófico e construir à sua volta uma actividade.

    O ponto de partida é outro: interessa-me perceber que possibilidades de pensamento existem naquele encontro específico entre pessoas, obras e lugares.

    Interessa-me perceber que possibilidades de pensamento existem naquele encontro específico entre pessoas, obras e lugares.

    Cada contexto exige uma escuta diferente: uma exposição de arte contemporânea não oferece as mesmas possibilidades que um museu, uma fotografia não convoca necessariamente o mesmo tipo de experiência que um objecto patrimonial. Um grupo de crianças não chega a um espaço cultural com o mesmo olhar que um grupo de adultos.

    A mediação acontece precisamente nesse espaço de relação.

    O lugar convida a pensar

    Uma das dimensões que mais me interessa neste trabalho é a importância do lugar.

    Quando desenvolvo uma proposta de mediação, não penso apenas naquilo que está exposto. Penso também no espaço onde nos encontramos, naquilo que conta, naquilo que esconde, nas relações que permite estabelecer e nas perguntas que pode tornar possíveis.

    Esta perspectiva tornou-se particularmente evidente nas Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais, desenvolvidas desde 2024 nos Cemitérios de Lisboa.

    Aqui, o cemitério não é somente um cenário para uma oficina de filosofia, mas sim parte da própria experiência.

    A memória, a ausência, a passagem do tempo, a identidade, os rituais, os símbolos e as diferentes formas de relação com os mortos estão inscritos naquele espaço.

    O património deixa, assim, de ser apenas algo sobre o qual aprendemos e torna-se matéria para pensar.

    As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais são, por isso, um exemplo particularmente claro daquilo que procuro fazer: cruzar filosofia, experiência cultural, património e diálogo, criando uma proposta que dificilmente caberia numa categoria convencional. O projecto tem vindo a afirmar-se como uma proposta singular no contexto português, trabalhando a morte com crianças e famílias em contexto cemiterial e articulando a prática filosófica com conhecimento especializado sobre os cemitérios enquanto espaços culturais e patrimoniais.

    Entre a obra e o público

    A mediação cultural acontece, em grande medida, nesse espaço intermédio e a pessoa que faz a mediação não é apenas como alguém que transmite informação.

    Existe uma dimensão de construção de condições para o encontro — é aqui que a minha formação em Filosofia para/com Crianças e Jovens tem sido determinante.

    O trabalho desenvolvido ao longo de anos com comunidades de investigação, a experiência na facilitação do diálogo e o estudo das condições que permitem que diferentes pessoas pensem em conjunto constituem uma base importante para este tipo de mediação.

    Não se trata de transportar mecanicamente uma prática de um contexto para outro, mas sim de reconhecer que há conhecimentos e competências desenvolvidos no trabalho filosófico — particularmente no questionamento, na escuta, na argumentação e no diálogo — que podem contribuir para outras formas de relação com a cultura.

    O diálogo não é apenas uma técnica

    Há uma tendência para pensar o diálogo como uma ferramenta que podemos acrescentar a uma actividade.

    Perguntamos. Damos a palavra. Ouvimos as respostas. Seguimos para a próxima pergunta. Mas o diálogo filosófico que tenho vindo a estudar e a praticar é mais exigente do que isso, pois implica criar condições para que as ideias possam ser examinadas.

    Pretendo transportar para os contextos culturais a experiência de pensamento partilhado, reconhecendo que um espaço cultural também pode ser um espaço de investigação.

    Da Filosofia para/com Crianças à mediação cultural

    O percurso que me trouxe até aqui começou, em grande medida, no trabalho com crianças e jovens.

    A Filosofia para/com Crianças ensinou-me a levar a sério as perguntas, a observar o modo como as pessoas constroem significado em conjunto e a reconhecer que o pensamento não precisa de acontecer apenas em contextos académicos.

    Ao longo dos anos, fui encontrando outros lugares onde estas práticas podiam fazer sentido (museus, cemitérios, exposições artísitcas, festivais literários…) e cada contexto permitiu-me também aprender.

    A importância do contexto

    Não vejo a mediação cultural e filosófica como uma metodologia com um conjunto fixo de passos, muito menos como uma fórmula poderia ser facilmente transportada de uma exposição para outra.

    Interessa-me precisamente o contrário, ou seja, partir de cada contexto. Por isso é que a preparação da oficina é tão importante para mim, fazendo uma visita prévia ao espaço para perceber o que o espaço oferece e encontrar algo que possa ser provocador de pensamento.

    Partir de cada contexto.

    Este é um trabalho que tem tanto de investigação quanto de criação.

    Uma prática que cruza diferentes saberes

    Hoje, quando penso na minha prática de mediação cultural e filosófica, reconheço nela vários percursos que se foram encontrando: a Filosofia para/com Crianças e Jovens, o estudo e a prática do diálogo, a investigação sobre pensamento crítico, a mediação cultural, o meu interesse pelo turismo cultural, a experiência em museus, exposições, festivais, bibliotecas e outros espaços culturais.

    Nenhum destes elementos, isoladamente, define aquilo que faço; é a sua combinação que dá forma à minha prática.

    Talvez por isso seja difícil descrevê-la apenas como “oficina de filosofia” ou “visita guiada”. É uma forma de mediação cultural que utiliza o pensamento e o diálogo como matéria de trabalho.

    E se a mediação não terminasse quando saímos do museu?

    Uma experiência cultural interessante não precisa de terminar quando atravessamos a porta de saída. Pode continuar numa pergunta — ou num guia orientador do diálogo.

    Tenho tido a oportunidade de criar guias ou guiões para pensar a partir de exposições ou outros espaços culturais. Em 2025 um desses trabalhos foi reconhecido com o Prémio Linguagem Clara, pela Acesso Cultura.

    Filosofia e mediação cultural: um território próprio

    Existem encontros em que a filosofia pode fazer algo particularmente interessante: abrir espaço para que o público não se limite a compreender aquilo que está diante de si, mas possa pensar a partir disso. Não se trata de ensinar as pessoas a olhar para uma obra de determinada maneira, mas sim de criar condições para que possam olhar, pensar e dialogar a partir dela.

    Diria que é aí que reside a diferença entre apresentar uma obra e mediar o encontro com ela.

    Uma obra pode ser explicada em poucos minutos; uma boa pergunta pode continuar connosco muito depois de termos saído do museu.

    boa pergunta pode continuar connosco muito depois de termos saído do museu.

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    Se procura uma forma diferente de aproximar os seus públicos de uma exposição, de um museu, de um espaço patrimonial ou de um festival, podemos pensar em conjunto uma proposta de mediação cultural e filosófica adequada ao seu contexto.

    Desenvolvo oficinas, visitas dialogadas e outros dispositivos de mediação a partir das características de cada espaço, obra e público, cruzando a minha experiência em Filosofia para/com Crianças e Jovens com a prática do diálogo, o estudo da mediação cultural e do turismo cultural.

    Se pretende criar uma experiência cultural que não termina quando acaba a visita, fale comigo.